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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Pinturas Rupestres do Sítio Arqueológico Lapa das Abelhas I

No dia 19 de maio um arqueólogo do MAC participou de uma visita ao sítio arqueológico Lapa das Abelhas I, na zona rural do município de Arcos - MG. Esta visita integrou o programa de atividades do museu para a 13ª Semana de Museus, cujo tema deste ano foi: "Museus para uma sociedade sustentável". O objetivo era observar o estado de preservação do sítio arqueológico e fazer um registro fotográfico para ser comparado com registro semelhante feito no ano de 2002.

O sítio arqueológico Lapa das Abelhas I está inserido em uma enorme formação de rocha calcária situada na margem direita do rio São Miguel, ela é conhecida regionalmente como Morro do Quenta Sol, e alcança 866 metros de altitude. É um dos mais importantes marcos de paisagem no território do Carste do Alto São Francisco, delimitando o limite norte desta região. O Morro, propriamente dito, ocupa uma área superior a 350 hectares, se considerado seu entorno imediato, especialmente a várzea do rio São Miguel, a área ultrapassa 500 ha.
 
O Morro do Quenta Sol é uma formação que se destaca no relevo regional por sua extensão e volume¹. Um maciço rochoso que ainda está preservado das atividades de mineração e de desmatamento. A cobertura vegetal de toda a área é marcada por uma densa e impressionante formação florestal. Totalmente diferente das formações secundárias que ocorrem em outras áreas de nossa região, no Quenta Sol há áreas dominadas por conjuntos de árvores imensas, que aparentam ter uma idade recuada.
  
Clique na imagem para ampliar. Localização do sítio arqueológico Lapa das Abelhas I, no Morro do Quenta Sol, margem direita do rio São Miguel, zona rural do município de Arcos - MG, extremidade norte do território do Carste do Alto São Francisco. Modificado do Google Earth e Wikimedia Foundation.
O Morro do Quenta Sol guarda um rico patrimônio espeleológico, composto por inúmeras cavidades naturais e feições típicas do carste: grutas, abrigos rochosos, lapiás, dolinas, corredores de diáclase, etc. Na área foram identificados diversos sítios arqueológicos, com um registro de ocupações de grupos indígenas caçadores coletores e de agricultores ceramistas. Nunca foram feitas datações radiocarbônicas nesta área, mas a julgar por medições feitas em outros locais do Carste regional, o patrimônio arqueológico ali presente pode corresponder a uma história indígena com 9 milênios de duração.
  
Neste conjunto destaca-se o sítio arqueológico Lapa das Abelhas I, uma pequena gruta cuja entrada se conforma em uma  zona abrigada com cerca de  100 m² de área (fotos 1 a 3). É nesta zona abrigada que se concentra o registro arqueológico, caracterizado por sedimento arqueológico, pinturas rupestres distribuídas em diferentes pontos do abrigo (fotos 4 a 7) e fragmentos de cerâmica arqueológica indígena (fotos 8 a 10). No interior da pequena gruta, em zonas escuras, também foram encontrados fragmentos de cerâmica, ainda que em menor quantidade que o abrigo.
  

Clique na imagem para ampliar. 1 e 2. Perspectivas do abrigo rochoso, à entrada da pequena gruta, que conforma o sítio arqueológico Lapa das Abelhas I. 2 e 3. Painéis rupestres localizados em porções do teto e paredes do abrigo rochoso. 4 e 6. Detalhes de alguns grafismos rupestres. 5. Painel com maior número de grafismos, denota-se representações de peixes e do que parecem ser fitomorfos, representações de plantas.

 
O conjunto de pinturas rupestres é o que mais chama a atenção neste sítio arqueológico. Em todo o Carste do Alto São Francisco, ao longo de 1.500 km², é conhecida apenas uma dezena de sítios arqueológicos com presença de arte rupestre indígena. O Morro do Quenta Sol conta com dois sítios arqueológicos deste tipo, o principal deles é o sítio Antônio Vitalino, e o outro é o Lapa das Abelhas I. Seu conjunto pictográfico conta com cerca de três dezenas de figurações pintadas, uma boa parte delas está degradada, devido à ação de agentes naturais. Este sítio foi visitado no ano de 2002, tanto à época quanto atualmente não foram identificadas ações de vandalismo no espaço do sítio, ou em seu entorno. A nosso ver, um agente benéfico para a preservação do local é a restrição de circulação de pessoas na área, por parte dos proprietários das fazendas em que o Morro do Quenta Sol está inserido.

Para ler sobre outro sítio arqueológico com pinturas rupestres no Morro do Quenta Sol, clique aqui.  

As pinturas rupestres, em sua maioria, foram executadas com tintas de cor vermelha (fotos 4 a 7). Há representações de animais quadrúpedes (foto 6), peixes [?] (foto 5) e geométricos, como pontos e bastonetes (fotos 5 e 7), e talvez fitomorfos (representações de plantas). Os temas e forma de tratamento dos grafismos rupestres evocam uma cultura arqueológica brasileira denominada Tradição Planalto, presente em outras regiões da Bacia do Rio São Francisco, como no Carste de Lagoa Santa e na Serra do Cabral. Esta tradição cultural arqueológica é vinculada a ocupações de grupos indígenas caçadores coletores do período Arcaico. Tais grupos indígenas teriam ocupado nossa região em um período que vai, no mínimo, de 8.000 a 4.000 anos atrás.
 
Clique na imagem para ampliar. 8 a 10. Fragmentos de cerâmica indígena que jazem na superfície do sítio arqueológico. No passado estes 'cacos' fizeram parte de grandes vasilhames.
 
A maior parte da superfície sob o abrigo rochoso é coberta por sedimento pulverulento, o restante é formado por porções aonde aflora a rocha nua ou aonde ocorrem blocos e matacões. Nas porções cobertas por sedimento jazem em superfície dezenas de fragmentos cerâmicos. A maior parte destes fragmentos tem uma espessura grossa, igual ou superior a um centímetro. Nas culturas cerâmicas Jê, a espessura dos fragmentos é um atributo diretamente relacionado ao tamanho de seus respectivos vasilhames originais. Sendo assim, via de regra, fragmentos de espessura fina integravam vasilhames pequenos, ao passo que fragmentos de espessura dilatada integravam vasilhames grandes. 

É curioso encontrar fragmentos de vasilhames tão grandes em um abrigo com dimensões modestas, como é o caso do sítio arqueológico Lapa das Abelhas I. Ainda que utilizados em diferentes momentos, individualmente, alguns desses vasilhames poderiam alimentar ou saciar a sede de dezenas de pessoas. Se dois ou mais foram utilizados sincronicamente, isto é, ao mesmo tempo, eles alimentaram números da ordem de centenas.

Clique na imagem para ampliar. Reconstituições de vasilhames cerâmicos feitas a partir de fragmentos coletados no alto curso do Rio São Miguel, zona rural do município de Pains - MG. Os fragmentos encontrados no sítio arqueológico Lapa das Abelhas I integravam vasilhames semelhantes, tanto em forma quanto em volume.

Nos arredores do sítio também foram encontrados fragmentos de vasilhames enormes. Fontes históricas que foram produzidas entre os séculos XVI e XIX d.C., por observadores europeus e brasileiros, que tiveram contato com grupos indígenas de língua Jê, nos atuais Estados de Goiás, Minas Gerais e São Paulo, nos dão conta que os festejos e cerimônias rituais que envolviam grande número de participantes eram marcados pela utilização de grandes vasilhas de cerâmica, para consumo e preparação de cerveja de milho. Evidentemente, isto é uma conjectura, visto que este sítio nunca foi escavado ou estudado, mas talvez estes locais com pinturas rupestres demarcassem locais com importância cerimonial, e ritual, não só para o grupos caçadores coletores, mas também para os agricultores ceramistas, que viveram em nossa região nos últimos dois milênios de nossa história. 
G. H.
1. Ver: EMBRAPA. Brasil visto do espaço. Para acessar clique aqui.
  
Para saber mais:

NEVES, Walter & PILÓ, Luís B. O Povo de Luzia: em busca dos primeiros americanos. São Paulo: Globo, 2008. 333 p.
PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história de nosso pais. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. 102 p. Para acessar clique aqui.
KOOLE, Edward. Entre as tradições planálticas e meridionais... Tese de doutorado. São Paulo: MAE/USP. 416 p.
HENRIQUES, Gilmar. Arqueologia regional do Alto São Francisco: um estudo das tradições ceramistas Una e Sapucaí. Dissertação de Mestrado. São Paulo: MAE-USP, 2006. 82 p. Para baixar clique aqui.
 

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